Em 1893, durante a suspensão de garantias constitucionais que acompanhou a Segunda Revolta da Armada, Floriano Peixoto teria explicado ao ministro Cassiano do Nascimento — segundo relato que este reproduziu e que Laurentino Gomes registra em 1889 — como entendia seu próprio dever diante da crise: “Amigo, quando a situação e as instituições correm perigo, o meu dever é guardar a Constituição em uma gaveta, livrá-la da rebeldia e, no dia seguinte, entregá-la ao povo, limpa e imaculada.”

Ele guardou a Constituição na gaveta por três anos. Quando finalmente reuniu força suficiente para tentar mantê-la ali — controle sobre o núcleo decisivo do Exército, um movimento popular mobilizado e um culto pessoal sem precedentes na jovem República —, escolheu abrir a gaveta e sair. Entender por que exige percorrer os três anos mais violentos e mais estranhamente bem-sucedidos da história republicana brasileira até aquele ponto.

Uma presidência que a Constituição não previa claramente

Floriano Vieira Peixoto chega à Presidência em 23 de novembro de 1891 por sucessão formal: era vice-presidente quando Deodoro da Fonseca, isolado politicamente depois de dissolver o Congresso e pressionado pelos canhões da Marinha, renuncia. A Constituição de 1891, no entanto, contém um dispositivo — o artigo 42 — que parecia obrigar a convocação de novas eleições sempre que a vacância presidencial ocorresse antes de completados dois anos de mandato.

Floriano e seus aliados construíram uma interpretação alternativa: a exigência de nova eleição só se aplicaria a presidentes eleitos diretamente pelo povo, o que não era o caso nem de Deodoro nem, portanto, do próprio Floriano — ambos haviam sido escolhidos pelo Congresso Constituinte em caráter transitório. A leitura era, no mínimo, conveniente. Também não era juridicamente absurda o bastante para ser descartada de imediato, o que lhe permitiu governar por três anos sem jamais submeter seu mandato a um pleito direto.

A reação foi imediata. Em 31 de março de 1892, treze oficiais-generais do Exército e da Marinha — entre eles nomes como Wandenkolk — assinaram um manifesto exigindo o cumprimento do artigo 42. Floriano reformou todos. Rui Barbosa, que fora ministro de Deodoro e se tornaria um dos críticos mais persistentes do novo governo, resumiria o problema numa frase que se tornaria célebre: de uma ditadura que dissolvia o Congresso, apoiando-se na fraqueza dos governos locais, para outra que dissolvia os governos locais, apoiando-se no Congresso restabelecido, não haveria “progresso apreciável”. Nos meses seguintes, o governo prenderia opositores — entre eles o jovem Olavo Bilac, mantido na Fortaleza da Laje.

Duas guerras ao mesmo tempo

O verdadeiro teste do governo Floriano, porém, viria de duas direções simultâneas: do mar e do sul.

Em 6 de setembro de 1893, o contra-almirante Custódio José de Mello lançou um manifesto anunciando a Revolta da Armada, apresentando-se como oficial “brasileiro e cidadão de uma pátria livre” disposto a “combater os demolidores da Constituição e restaurar o regime da lei, da ordem e da paz” — a mesma linguagem constitucionalista que o próprio Floriano usava para justificar o oposto. Por trás do manifesto, no entanto, havia também ambição presidencial pessoal e uma rivalidade institucional mais antiga: a Marinha nunca se sentira plenamente representada numa República comandada, desde a Proclamação, por oficiais do Exército.

Em dezembro daquele ano, o comando da revolta passou ao almirante Luís Filipe Saldanha da Gama, monarquista declarado, que publicou sua própria Ordem do Dia assumindo o comando das “forças navais da revolução que, neste porto, combatem o governo ditatorial do marechal Floriano Peixoto” — o adjetivo “ditatorial”, vindo de um adversário direto, não é retórica gratuita: reflete como parte da elite política via o governo Floriano já naquele momento. A entrada de Saldanha imprimiu à revolta um tom restauracionista que nem todos os rebeldes compartilhavam, fragilizando sua coesão interna.

Os navios rebeldes ameaçaram bombardear a capital; famílias inteiras fugiram para os subúrbios. Floriano negociou uma trégua em outubro de 1893, sem ceder no essencial, e comprou às pressas nos Estados Unidos uma frota de reforço que a oposição apelidou de “esquadra de papelão”. O golpe decisivo, porém, veio de fora: em janeiro de 1894, o contra-almirante americano Andrew Benham, comandando navios já estacionados na baía de Guanabara para proteger o comércio americano, passou a escoltar navios mercantes através do bloqueio rebelde e reagiu com fogo quando os revoltosos tentaram impedir a passagem — intervenção que a historiografia considera decisiva para enfraquecer a Armada, derrotada definitivamente em março de 1894.

Ao mesmo tempo, no Rio Grande do Sul, a Revolução Federalista sangrava o estado havia meses: de um lado, os republicanos positivistas de Júlio de Castilhos, aliados de Floriano; do outro, os federalistas “maragatos” de Gaspar Silveira Martins, comandados em campo pelo lendário Gumercindo Saraiva. Era uma guerra de guerrilha, sem frentes fixas — o próprio Silveira Martins resumiria a estratégia com uma frase cortante: “Meu plano é um só e simples: cansar o inimigo, vencê-lo pelo cansaço.” Gumercindo morreria em combate em agosto de 1894, mas o conflito não terminou com ele: a guerra se estenderia, já sob o governo civil de Prudente de Morais, até a paz assinada em agosto de 1895 — quase um ano depois de Floriano deixar o poder. É um detalhe frequentemente simplificado: Floriano não “venceu” a Revolução Federalista antes de sair; ele deixou uma guerra ainda em curso para seu sucessor completar.

Um detalhe biográfico contrasta com a dureza desse cenário de guerra permanente. Mesmo no auge das duas campanhas, Floriano manteve hábitos de vida notavelmente modestos para um chefe de Estado: saía do Palácio do Itamaraty de madrugada, sozinho, para tomar o bonde de volta a casa, pagando a passagem do próprio bolso. Não há registro consistente de que tenha usado a Presidência para enriquecer ou beneficiar familiares. Esse mesmo homem, no entanto, governava sob estado de sítio, autorizava prisões sem processo devido e tolerava um aparato de repressão informal que operava em seu nome — a austeridade pessoal e o autoritarismo político conviviam sem contradição aparente na mesma figura.

O florianismo nas ruas

Enquanto combatia nas duas frentes, Floriano cultivava — e era cultivado por — um movimento popular urbano conhecido como jacobinismo, em referência à Revolução Francesa. Funcionários públicos, estudantes militares e setores populares sem lugar consolidado na política encontraram na figura do marechal um símbolo de ascensão e proteção. O jornal O Jacobino, do agitador Diocleciano Martyr, pregava lealdade cega a Floriano e hostilidade explícita aos comerciantes portugueses, acusados de especular preços durante a crise — acusação nem sempre comprovada caso a caso, mas que alimentava a imagem de Floriano como único defensor do povo contra estrangeiros gananciosos. Ele nunca fez esforço público para desmenti-la.

A ruptura diplomática com Portugal, ocorrida em 1894, teve origem mais concreta que a xenofobia ambiente: oficiais rebeldes da Armada, encurralados após a derrota, receberam asilo em navios portugueses ancorados na baía, sob condições que deveriam afastá-los da guerra. Levados rumo ao Rio da Prata, muitos conseguiram desembarcar e se somar às forças federalistas gaúchas. Floriano considerou que Portugal havia violado as condições do asilo e rompeu relações diplomáticas com Lisboa, explorando politicamente o ressentimento resultante: lojas de portugueses foram depredadas no Rio de Janeiro, e comerciantes chegaram a pendurar cartazes nas vitrines declarando “Somos amigos do Brasil”.

A mobilização dos batalhões patrióticos e de outros grupos florianistas armados — formados originalmente como milícia civil de apoio ao governo durante a Revolta da Armada — criou, com o tempo, uma zona ambígua entre defesa do governo, pressão de rua e repressão informal. Fazer oposição ao governo podia se tornar fisicamente perigoso, e Floriano jamais desautorizou publicamente esse aparato armado que agia em seu nome, mesmo sem tê-lo criado formalmente.

A eleição, o golpe que não veio e a saída

Em 1º de março de 1894, o Brasil realizou sua primeira eleição presidencial por voto direto — mas “direto” estava longe de significar democrático nos termos atuais: analfabetos e mulheres permaneciam excluídos do voto, e apenas cerca de 2% da população total votou. Prudente de Morais, civil paulista, venceu com folga.

No auge do prestígio — a Armada derrotada, embora a guerra no Sul ainda sangrasse —, Floriano dispunha de meios reais para tentar perpetuar-se no poder: controlava o núcleo decisivo do Exército, contava com um movimento de rua disposto a tudo por ele e um culto pessoal sem precedente entre governantes republicanos. Setores jacobinos defendiam abertamente que entregar o poder naquele momento seria irresponsabilidade, quase traição à obra ainda inacabada.

Ele não tentou. Os historiadores ainda debatem os motivos: a saúde gravemente debilitada (morreria sete meses depois, aos 56 anos); o cálculo de que romper com o apoio paulista custaria mais caro que ceder; ou, simplesmente, o entendimento de que sua legenda dependia de sair no auge, e não de ser derrubado como Deodoro fora.

Há, porém, um episódio pouco contado que talvez explique o momento exato da decisão. Segundo relato reproduzido em obras sobre o período, a ala jacobina mais radical planejava usar a própria cerimônia de posse de Prudente de Morais para forçar, num movimento articulado sem o consentimento do próprio Floriano, sua permanência no cargo. Segundo essa versão, Floriano tomou conhecimento — ou ao menos desconfiou — do que se preparava, e decidiu não comparecer à cerimônia. Sem sua presença para ser aclamado, a manobra perdeu a condição essencial de que dependia. No último dia do mandato, sem discurso de despedida, o marechal fez o que já era seu hábito havia anos: tomou um bonde sozinho, pagou a passagem do próprio bolso e seguiu para casa.

O homem que passara três anos guardando a Constituição numa gaveta escolheu, na hora mais decisiva de todo o seu governo, devolvê-la.

Um legado dividido

Floriano Peixoto não salvou uma República abstrata e unívoca. Consolidou a República específica que venceu no Rio de Janeiro, no Congresso reaberto e nos quartéis fiéis — recorrendo, para isso, a prisões arbitrárias, à reinterpretação oportunista da Constituição e à tolerância deliberada com uma violência de rua que não ordenava, mas da qual se beneficiava politicamente. Ao mesmo tempo, resistiu a pressões diplomáticas estrangeiras, defendeu a integridade territorial da jovem República em duas frentes de guerra simultâneas e, no momento mais decisivo de sua trajetória, recusou-se a transformar a exceção em permanência pessoal.

O florianismo tornou-se uma das matrizes simbólicas da ideia de tutela militar sobre a República. Sua memória reapareceria, sob formas diferentes, no hermismo da década de 1910, no tenentismo dos anos 1920 e em justificativas posteriores para intervenções militares — inclusive em 1964. Não se trata de uma cadeia causal direta, mas da sobrevivência de uma linguagem política: a força armada como guardiã de uma ordem que ela própria se considera autorizada a definir.

Fontes e leituras

  • Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, 1891.
  • Gomes, Laurentino. 1889. Editora Globo Livros, 2013.
  • Carvalho, José Murilo de. Os Bestializados e A Formação das Almas. Companhia das Letras.
  • Documentos e depoimentos de época sobre a Revolta da Armada e a Revolução Federalista, incluindo manifestos de Custódio de Mello e Saldanha da Gama.
  • Verbete biográfico de Floriano Peixoto, CPDOC/FGV.
  • A frase da “Constituição na gaveta” é reproduzida por Laurentino Gomes a partir de relato do ministro Cassiano do Nascimento, testemunha direta do episódio.