Como uma disputa de farda entre 1884 e 1887 se tornou o laboratório político que tornou possível a queda do Império

Em 15 de novembro de 1889, Deodoro da Fonseca marchou com tropas até o centro do Rio de Janeiro e derrubou o gabinete do Visconde de Ouro Preto. A República ainda não estava inteiramente decidida naquela manhã: o próprio marechal, ao anunciar aos ministros que estavam demitidos, disse que levaria ao imperador uma lista de nomes para um novo governo — gesto que não faria sentido se já estivesse depondo a Monarquia. Mas Deodoro carregava uma certeza adquirida dois anos e meio antes: quando uma parcela influente do Exército se mobilizava em nome da honra da classe, o poder civil recuava.

Esse aprendizado ocorreu entre 1884 e 1887, na chamada Questão Militar — não um plano antecipado para derrubar a Monarquia, nem um ensaio geral de final conhecido, mas um laboratório político. Nele, oficiais de gerações diferentes aprenderam a falar em nome da corporação, a usar a imprensa, a mobilizar escolas e guarnições, a negociar como força coletiva e a transformar um marechal em símbolo. Em 1889, os personagens, a linguagem e os instrumentos já existiam. Faltava a circunstância.

Um Exército Ressentido, Mas Não Uniforme

A raiz remonta a 1870, ao fim da Guerra do Paraguai. O Brasil venceu, mas pagou caro, e os oficiais que voltaram não encontraram um país agradecido: soldos comprimidos, promoções lentas, redução dos efetivos e tropas espalhadas por pequenas guarnições no interior. O resultado, pretendido ou não, foi um Exército disperso, mal remunerado e frequentemente ocioso — e, segundo Heitor Lyra, quanto mais disperso e ocioso, mais espaço sobrava para a política de botequim ocupar o lugar do treinamento. Os números dão a dimensão do problema: em 1884, um relatório do Visconde de Pelotas ao Senado registrou 7.526 ocorrências de prisão disciplinar num Exército de cerca de 13.500 homens; 54 dessas punições atingiram oficiais.

Mas não havia um único Exército pensando da mesma forma. O antropólogo Celso Castro distingue pelo menos três camadas: os veteranos mais antigos, como Deodoro e Pelotas; os oficiais que haviam sido jovens durante a Guerra do Paraguai, como Cunha Matos e Benjamin Constant; e a mocidade militar, alunos e recém-formados que não conheciam a guerra, mas haviam aprendido a enxergar a política pelos corredores da Escola Militar da Praia Vermelha. A Questão Militar foi perigosa justamente por juntar, por algum tempo, essas três gerações em torno de uma linguagem comum: a honra da classe. Não era a primeira tentativa de organização corporativa — já em 1881, um grupo liderado pelo capitão Marciano de Magalhães, irmão de Benjamin Constant, tentara formar um “partido militar” para eleger candidatos ao Parlamento, com Sena Madureira entre os nomes. A chapa foi derrotada e a ideia morreu no berço, mas o precedente ficou disponível.

Havia, ainda, um precedente mais sombrio sobre o custo de desafiar a farda pela imprensa. Em outubro de 1883, oficiais e soldados do 1º Regimento de Cavalaria invadiram a redação de O Corsário e destruíram sua tipografia, em resposta a artigos que atacavam militares do regimento. Ameaçado de morte, o editor Apulcro de Castro foi pedir garantias de vida à Repartição de Polícia — e foi ali, ao deixá-la, à plena luz do dia, que morreu a facadas e tiros. Um inquérito relacionou onze militares ao caso; quatro chegaram a ser indiciados como autores — o mais graduado, o capitão Antônio Moreira César, que décadas depois comandaria, já coronel, a fracassada expedição contra Canudos —, mas nenhum chegou a ser formalmente pronunciado. Dias depois, Dom Pedro II visitou o quartel do regimento envolvido — gesto lido de duas formas opostas: reconhecimento da dignidade militar, para uns; humilhação da Coroa diante de rebelião impune, para o deputado Andrade Figueira, que a denunciou da tribuna. O precedente que ficou não era de moderação: era de impunidade armada contra quem discordasse da farda.

A Faísca do Piauí

Foi nesse terreno já inflamável que, em fevereiro de 1886 — já reincidente, pois fora censurado por episódio semelhante em 1882 —, o coronel Cunha Matos, em inspeção, encontrou irregularidades numa companhia de infantaria no Piauí e denunciou o comandante — correligionário conservador do deputado Simplício Coelho de Resende, que em 15 de julho de 1886 subiu à Câmara e acusou Cunha Matos de traição na Guerra do Paraguai. Cunha Matos reagiu pela imprensa, e o ministro da Guerra, Alfredo Chaves, prendeu-o por dois dias, invocando avisos ministeriais — o mais antigo de 1859 — que proibiam militares de tratar de assuntos de serviço ou política pela imprensa sem licença.

A prisão, isoladamente, seria episódio menor. Mas criou uma vítima com nome, e o Senado a transformou em bandeira. O Visconde de Pelotas subiu à tribuna em agosto de 1886 e declarou que Cunha Matos fora “ferido em sua honra militar, no que tem o soldado de mais respeitável”. No mesmo debate, o senador Franco de Sá reabriu um caso paralelo, de 1884: o de Sena Madureira, afastado do comando da Escola de Tiro de Campo Grande, repreendido em ordem do dia e transferido para o Rio Grande do Sul depois de receber com festa o “Dragão do Mar”, jangadeiro símbolo do abolicionismo — numa época em que o Exército ainda era, por lei, obrigado a auxiliar a captura de escravizados fugidos. Um relato publicado só depois da morte do próprio Madureira sugeriria que ele talvez nem estivesse presente naquele dia, tendo assumido a culpa para proteger subordinados — versão tardia, não documentada em 1884. Reaberto o caso em 1886, Madureira publicou n’A Federação, jornal republicano de Júlio de Castilhos, um manifesto mordaz contra os “generais improvisados”. Pediu demissão cinco vezes seguidas até o governo, encurralado, ceder.

Já não era manipulação unilateral de militares por políticos civis: era aliança de conveniência instável entre ressentimento de farda e estratégia de oposição — os jornais davam vocabulário e publicidade; a farda oferecia à política o que nenhum partido possuía sozinho, coesão corporativa e capacidade de mobilização física.

A Marcha Sobre o Rio

O superior direto de Madureira, o marechal Deodoro da Fonseca, foi arrastado para a crise por telegramas ambíguos e por uma denúncia de prevaricação movida por aliados do senador Silveira Martins. Cotegipe tentou desarmar a bomba transferindo a discussão jurídica ao Conselho Supremo Militar e de Justiça (CSMJ), que em 18 de outubro de 1886 reconheceu o direito dos oficiais de discutir qualquer assunto fora de matéria de serviço — interpretação que o próprio imperador reforçou. Em 3 de novembro, uma resolução imperial baseada nesse parecer esvaziou a aplicação dos avisos aos casos em disputa, mas o governo evitou uma confissão integral de inconstitucionalidade: sustentou que as punições só seriam retiradas mediante requerimento formal dos próprios oficiais. Ambos recusaram: queriam revogação por iniciativa do Estado, como confissão de erro. A discussão deixara de ser sobre liberdade de expressão; passara a ser sobre quem se curvaria primeiro.

Antes mesmo de Deodoro chegar ao Rio, a juventude militar já ensaiara sua força como corpo político: em 10 de outubro de 1886, numa reunião na Sociedade Francesa de Ginástica, Benjamin Constant presidiu a aprovação de uma moção de solidariedade aos oficiais do Sul, referendada por plateia majoritariamente formada por alunos da Escola Militar.

Em 8 de janeiro de 1887, Sena Madureira chegou a Porto Alegre e foi recebido como herói, hospedado no palacete do Visconde de Pelotas, onde uma reunião festiva juntou os três símbolos da crise. Dias depois, Deodoro e Madureira embarcaram juntos rumo à Corte, chegando ao Rio em 26 de janeiro — recepção que o governo tentou conter fechando os portões da Escola Militar da Praia Vermelha, ordem executada, ironicamente, pelo próprio irmão de Deodoro, general Severiano Martins da Fonseca, comandante da escola. Os alunos pularam o muro. Severiano pediu demissão.

O clímax veio em 2 de fevereiro, no Teatro Recreio Dramático: cerca de duzentos oficiais, presididos por Deodoro, aprovaram moção em quatro pontos — anular os avisos, rejeitar qualquer punição, apelar ao imperador, delegar a Deodoro poderes para negociar. Ali, Benjamin Constant pronunciou a frase mais ambígua do episódio: que, se num regime democrático já se condena a preponderância de qualquer classe, maior condenação ainda merece o “predomínio da espada”, por dispor de meios mais fáceis para o abuso — legitimando a mobilização e alertando, no mesmo fôlego, contra o precipício que ajudava a criar.

A Decisão Que Enfraqueceu o Governo

Em 5 de fevereiro, Deodoro entregou a Dom Pedro II uma carta exigindo o fim das punições. O ministro da Guerra sugeriu reformar — aposentar à força — o marechal insubordinado. O imperador recusou a reforma compulsória, evitando uma medida que poderia ampliar a crise. Alfredo Chaves ficou politicamente enfraquecido e deixou a pasta pouco depois, na reorganização ministerial; Deodoro, por sua vez, permaneceu no centro do conflito. Para os oficiais, a lição prática era difícil de ignorar: escalar o conflito produzia resultados.

O substituto, Joaquim Delfino Ribeiro da Luz, tentou meio-termo: cancelaria as punições se os oficiais as requeressem. Madureira e Cunha Matos recusaram de novo — “Cortem-me a mão, mas não requeiro”, teria dito o primeiro. Até Benjamin Constant, que legitimara a mobilização semanas antes, viu o risco e os repreendeu: “Os senhores são uns turbulentos que querem fazer a República” — o futuro pai intelectual da Proclamação avisando, em 1887, que a radicalização ia longe demais.

Maio: A Capitulação

Sob pressão de uma comissão militar formada em Porto Alegre, Deodoro voltou atrás de uma declaração anterior de vitória e, em 10 de março, publicou nova nota de solidariedade no jornal O País. No mesmo dia, Dom Pedro II adoeceu gravemente em Petrópolis — coincidência carregada de simbolismo, ainda que sem relação causal direta com a nova manifestação militar.

Em 14 de maio de 1887, Deodoro e Pelotas assinaram o manifesto “Ao Parlamento e à Nação”, acusando o governo de reduzir os militares à condição de “janízaros” — tropa servil do sultão otomano, sem cidadania. No Senado, Pelotas advertiu Cotegipe de que o governo podia perder o controle sobre o Exército, o que poderia ensejar uma revolução. O impasse só se resolveu em 20 de maio, quando Silveira Martins apresentou uma moção “convidando” o governo a suspender os avisos — fórmula já combinada, por intermediários, entre Pelotas e o próprio Cotegipe, que exigiu apenas que o texto preservasse a dignidade do governo, trocando “aconselhe” por “convide”. Encurralado, o barão se curvou. O País já o ironizara como “imperador interino”, expressão de combate jornalístico destinada a responsabilizá-lo pessoalmente pela resistência do governo. Agora, nem esse poder caricaturado pelo jornal fora suficiente para sustentar as punições diante dos quartéis.

O Legado: Nasce o Clube Militar

A vitória não se dissolveu em comemoração. Encerrada a crise, os oficiais descobriram, nas palavras de R. Magalhães Júnior, “a força de uma classe quando unida”. Em 26 de junho de 1887, fundaram o Clube Militar. No mês seguinte, em 4 de julho, o estatuto deu forma permanente a essa experiência de mobilização, declarando entre seus fins “defender pela imprensa e junto aos poderes do Estado os direitos e legítimos interesses da classe militar”. Deodoro assumiu a presidência; Benjamin Constant, a tesouraria.

A passagem da pressão corporativa para a política formal foi quase imediata. Aberta uma vaga no Senado pelo Rio de Janeiro, surgiu a candidatura de Deodoro. Benjamin Constant, que dizia jamais ter votado, declarou que sufragaria um candidato militar sem vínculos partidários que defendesse a abolição, a autonomia das províncias, o casamento civil, a separação entre Igreja e Estado e a secularização dos cemitérios. Convidado a se manifestar, o próprio Deodoro respondeu: “Aceito esse programa e declaro, neste momento, que não estou ligado a partido algum”. A candidatura reuniu apoio republicano e da Confederação Abolicionista, e terminou em último lugar — mas os pouco mais de mil votos recebidos, num dos redutos mais conservadores e escravistas do país, foram lidos como sinal do impacto da crise sobre o eleitorado.

Em 25 de outubro de 1887, o Clube Militar pediu à princesa regente Isabel que não consentisse no emprego de tropas na captura de escravizados fugidos. A petição não eliminou de imediato essas missões, mas legitimou a resistência interna e o boicote informal a elas. Em maio de 1888, com a Abolição, a fratura entre a farda e a velha ordem escravista do Império ficou exposta de vez.

A verdadeira Questão Militar, escreveu Heitor Lyra, nunca foi sobre avisos ministeriais — “discussão bizantina”. Era um divórcio já aberto entre um governo gasto e uma facção politizada do Exército que, sem repressão possível, só crescia. John Schulz interpretou esse processo como a formação de uma contraelite militar, social e intelectualmente diferenciada da elite civil; José Murilo de Carvalho, ao estudar a intervenção militar iniciada ainda no Império, também destacou a crescente autonomia organizacional e política da corporação.

A Questão Militar não tornou a República inevitável. Em 1887, a maioria de seus protagonistas ainda não pretendia derrubar a Monarquia: Deodoro e Pelotas buscavam desagravo; os republicanos civis buscavam transformar o ressentimento em ruptura; a mocidade militar começava a crer que a farda lhe conferia missão política. O legado não foi um plano pronto — foi a redução do custo da desobediência. Os oficiais aprenderam a se apresentar como classe, construíram redes entre escolas e guarnições, encontraram aliados na imprensa, criaram organização permanente e comprovaram que o governo podia ser obrigado a recuar.

Dois anos e meio depois, quando Deodoro saiu dos quartéis para derrubar outro ministério, a queda do regime ainda dependia de decisões tomadas ao longo daquele mesmo dia — o próprio marechal, segundo testemunhas, chegou a dar vivas ao imperador antes que a adesão republicana se consolidasse. Mas os instrumentos da intervenção já estavam disponíveis havia dois anos. A Questão Militar não escreveu o final da Monarquia. Tornou esse final possível.

Bibliografia

CARVALHO, José Murilo de.Forças Armadas e política no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. CASTRO, Celso.A Proclamação da República. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. CASTRO, Celso; IZECKSOHN, Vitor; KRAAY, Hendrik (org.).Nova história militar brasileira. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. Discursos — Questão Militar — fonte primária (Brasiliana Digital/USP), citada de forma descritiva por não ter localizado folha de rosto completa com editora/ano GOMES, Laurentino.1889. São Paulo: Globo, 2013. LEMOS, Renato.Benjamin Constant, vida e história. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999. LYRA, Heitor.História da queda do Império. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1964. LYRA, Heitor.História de Dom Pedro II (vol. 3, “Declínio”). Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1977. MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo.Deodoro, a espada contra o Império (vol. 1). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957. SCHULZ, John.O Exército na política. São Paulo: Edusp, 1994.

Nota: este artigo integra a série sobre a Primeira República produzida para o OBD e baseia-se em pesquisa documental e bibliográfica mais ampla, disponível aos membros do canal.